Introdução
Durante muito tempo, a pergunta “as máquinas podem pensar?” habitou as margens do pensamento técnico e o imaginário da ficção científica. Alan Turing, ao formulá-la em meados do século XX, não buscava apenas uma resposta tecnológica — ele desafiava as fronteiras entre humano e máquina, cognição e cálculo, decisão e automatismo.
Hoje, essa provocação retorna com força renovada. Mas agora, em vez de especulação, ela se traduz em realidade cotidiana: as máquinas não apenas “pensam” — elas já estão decidindo por nós.
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Aplicativos que sugerem caminhos, plataformas que filtram o que vemos, algoritmos que escolhem o candidato ideal para uma vaga ou o diagnóstico mais provável diante de um sintoma. Em silêncio, a inteligência artificial se tornou uma infraestrutura decisional invisível, moldando escolhas individuais e coletivas de forma profunda e persistente.
Ao longo da Quarta Revolução Industrial, a IA deixou de ser uma inovação periférica para ocupar o centro dos sistemas que estruturam o mundo contemporâneo. O que antes se limitava à automação de tarefas físicas, como braços robóticos em linhas de produção, agora alcança profissões cognitivas e criativas: professores, médicos, jornalistas, advogados, desenvolvedores e artistas já trabalham ao lado — ou sob coordenação — de algoritmos.
Neste artigo, investigamos como algoritmos, aprendizado de máquina e robôs não apenas executam funções, mas reconfiguram relações de trabalho, formas de controle, dinâmicas de exclusão e modelos de convivência. Mais do que um debate técnico, trata-se de uma questão política e cultural: afinal, quando deixamos que máquinas pensem por nós, o que estamos — talvez sem perceber — deixando de pensar?
Do cálculo à decisão: o que é IA, afinal?
Em termos simples, a inteligência artificial refere-se à capacidade de sistemas computacionais executarem tarefas que, até pouco tempo, exigiam cognição humana: reconhecer padrões, tomar decisões, prever resultados.

Com o avanço do aprendizado de máquina (machine learning) e do aprendizado profundo (deep learning), esses sistemas se tornaram capazes de se “aperfeiçoar” a partir de grandes volumes de dados. Ou seja, quanto mais interagem com o mundo, mais refinadas se tornam suas decisões.
Por trás do chatbot que responde e-mails, da câmera que reconhece rostos ou do algoritmo que escolhe seu próximo vídeo, há redes neurais artificiais operando em silêncio. E o silêncio é o ponto: a IA faz parecer mágica o que, na verdade, é poder computacional embutido em opacidade.
Trabalho: da automação manual à automação cognitiva
Historicamente, o discurso da automação gira em torno da substituição de empregos. Na Quarta Revolução Industrial, porém, o cenário é mais complexo.
Sim, robôs substituem humanos em tarefas físicas repetitivas. Mas agora algoritmos também substituem análises, diagnósticos, decisões. Um exemplo: softwares de recrutamento que avaliam currículos automaticamente e, com isso, definem quem terá (ou não) acesso a uma vaga.
Além disso, surgem os empregos “automatizados por dentro”, como nas plataformas de entrega e transporte: o trabalhador permanece humano, mas suas tarefas são guiadas por decisões automatizadas — metas, trajetos, avaliações, tudo gerenciado por inteligência algorítmica.
O resultado? Precarização invisível e desumanização elegante.
📚 Educação: ensinar ou treinar?
Na sala de aula, a IA surge com a promessa de personalizar a aprendizagem. Plataformas adaptativas ajustam conteúdos conforme o desempenho de cada estudante, propondo um “ritmo ideal” de estudo.
Embora isso possa parecer revolucionário, precisamos perguntar:
Personalizar para quê? Ensinar ou apenas treinar para testes?
Quando a inteligência artificial entra na educação sem mediação crítica, ela transforma o ato de aprender em um processo de otimização comportamental. O risco? Reduzir o aluno a um conjunto de métricas e o professor a um operador de sistema.
🏥 Saúde: diagnósticos em tempo real — e dilemas éticos
Na medicina, a IA já consegue detectar sinais de doenças com precisão muitas vezes superior à de humanos, especialmente em exames de imagem. Há sistemas que cruzam milhares de prontuários para sugerir tratamentos personalizados.
Contudo, a pergunta persiste: quem responde por um erro algorítmico?
Quando um sistema recomenda um procedimento que falha, a responsabilidade é do médico, do software, do programador?
Além disso, a coleta massiva de dados biométricos, por wearables e aplicativos de saúde, cria um novo território de vigilância do corpo. A medicina do futuro pode ser mais eficiente — mas também mais invasiva e desigual.
🧭 Decisões automatizadas: o novo poder invisível
Hoje, não é exagero dizer que a inteligência artificial já influencia aspectos centrais da vida democrática. Em vários países, algoritmos participam de decisões eleitorais, orientam políticas públicas e até intervêm em sentenças judiciais. Em algumas cidades, sistemas automatizados tentam prever onde crimes “podem” acontecer, orientando o policiamento de forma supostamente mais eficiente.

No entanto, por trás dessa promessa de eficiência, escondem-se riscos profundos. Esses sistemas geralmente se baseiam em dados históricos — que refletem desigualdades sociais, raciais e econômicas já existentes. Como consequência, os algoritmos não apenas reproduzem esses vieses, mas os reforçam sob a aparência de neutralidade técnica.
Esse verniz de objetividade é especialmente perigoso. Ao revestirem decisões com linguagem matemática, esses sistemas naturalizam práticas discriminatórias. Assim, escolhas sobre liberdade, direitos e segurança passam a ser feitas por modelos que ignoram o contexto humano — e que, muitas vezes, não prestam contas por seus impactos sociais.
É nesse ponto que a crítica de Shoshana Zuboff se torna fundamental. Em sua obra A Era do Capitalismo de Vigilância, a autora define esse fenômeno como um novo regime econômico baseado na extração, análise e comercialização do comportamento humano. De acordo com Zuboff, empresas de tecnologia — e, em muitos casos, o próprio Estado — não apenas observam nossas ações, mas transformam nossos dados em previsões altamente lucrativas, que moldam comportamentos futuros. Trata-se de um modelo que transforma a experiência humana em matéria-prima para fins de lucro e controle.
O problema da inteligência artificial não está apenas na máquina, mas na lógica política e econômica que comanda seu uso. Quando dados servem para prever — e induzir — decisões, entra em cena um poder que não ordena, mas condiciona.
A IA, nesse contexto, funciona como uma governança invisível. E, enquanto não enxergarmos isso, continuaremos delegando escolhas a algoritmos — mesmo que elas nos afastem da justiça e da autonomia.
🧠 As máquinas pensam… com quais valores?
A pergunta de Turing volta com mais força: se as máquinas pensam, com base em quê elas decidem?
Os algoritmos não são conscientes, mas funcionam como espelhos — e, muitas vezes, como amplificadores — de quem os programa e de como a sociedade está estruturada.
Por isso, falar sobre IA é falar sobre ética, governança, justiça e poder.
Quem constrói? Fiscaliza? Lucra? Quem perde?
E, acima de tudo: quem decide?
Conclusão
A inteligência artificial não representa apenas um salto técnico ou um avanço na capacidade computacional — ela inaugura uma nova forma de organização social. Mais do que automatizar tarefas, a IA reconfigura relações de poder, redistribui o controle sobre a informação e altera os modos de produção, convivência e decisão coletiva.
Ao penetrar em sistemas tão distintos como saúde, justiça, educação, transporte, consumo e segurança pública, os algoritmos passam a desempenhar um papel de mediação estrutural: definem prioridades, moldam preferências, interpretam comportamentos e, por fim, influenciam o que é possível ou legítimo em uma sociedade digitalizada.
Nesse cenário, não basta temer a IA como um inimigo ou adorá-la como uma solução mágica. Ambas as posturas — o pânico e o deslumbramento — alimentam uma visão passiva da tecnologia, como se ela fosse inevitável, imparável e neutra. No entanto, toda tecnologia carrega intenções, escolhas políticas, valores embutidos e interesses específicos.
Por isso, o verdadeiro desafio está em compreender a inteligência artificial em sua dimensão política. Isso significa perguntar: quem a desenvolve? Com quais objetivos? Com quais dados? E com que consequências sociais?
Somente a partir dessa consciência crítica é possível disputar o rumo dessa revolução tecnológica. Se quisermos que a IA esteja a serviço da justiça social, da dignidade humana e do bem comum, precisamos deixá-la menos invisível — e mais democrática.
Porque, no fim das contas, não se trata apenas de máquinas que aprendem, mas de sociedades que escolhem para onde vão.

André Sampaio é historiador, educador e especialista em tecnologias aplicadas à educação. Com mais de 15 anos de atuação no setor, uniu sua experiência em sala de aula à inovação pedagógica, atuando como professor, autor de materiais didáticos e especialista pedagógico em edtechs.
Formado em História pela UFF e mestre em Educação pela PUC-Rio, com foco em tecnologias educacionais, é também colaborador do Betaverso — espaço onde escreve sobre os impactos da tecnologia na educação, cultura e sociedade. Sua trajetória é movida pelo compromisso com uma educação crítica, acessível e conectada com os desafios do presente.


Ótima leitura
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