Introdução
A cada rota que seguimos no GPS, a cada vídeo que consumimos sem perceber, ou a cada produto que chega em tempo recorde, o capitalismo de plataforma reafirma sua presença estruturante no cotidiano. Por meio das plataformas digitais, ele não apenas promete conveniência, velocidade e personalização — como também entrega essas experiências com uma eficácia que poucos modelos econômicos anteriores foram capazes de alcançar.
Contudo, ao nos acostumarmos com essa fluidez, muitas vezes deixamos de questionar o que realmente sustenta esse funcionamento aparentemente “inteligente”. Afinal, quais estruturas operam nos bastidores desse sistema? O que está em jogo quando confiamos às plataformas não apenas nossos dados, mas também nossas decisões, nossos deslocamentos, nossas buscas e até nossos afetos?
Com o passar dos anos, a chamada economia das plataformas deixou de parecer uma tendência passageira e assumiu o status de infraestrutura essencial. No entanto, precisamos perguntar se essa centralidade se deu por mérito técnico ou por um projeto político-econômico cuidadosamente articulado.
Neste artigo, portanto, escolhemos refletir sobre o capitalismo de plataforma não como uma figura simplista — seja de vilão, seja de herói —, mas como um fenômeno complexo e ambivalente, que exige leitura crítica em múltiplas camadas: técnica, econômica, política e cultural.
Somente ao ampliar nosso campo de visão conseguimos compreender não apenas como essas plataformas funcionam, mas também por que elas passaram a mediar, de forma tão profunda, as relações humanas em escala global.

O que é o capitalismo de plataforma?
O termo “capitalismo de plataforma” tem sido utilizado para descrever um novo modelo de organização econômica, baseado em plataformas digitais que intermediam relações entre pessoas, produtos, serviços e dados. Empresas como Amazon, Google, Meta, iFood ou Uber não apenas oferecem serviços — elas constroem infraestruturas que mediam o cotidiano.
Segundo os pesquisadores Luiz Fernando Gaio e Rafael Evangelista, essa nova lógica não se limita à digitalização da economia tradicional. Ela configura um novo regime de controle e acumulação, sustentado pela coleta massiva de dados, pela gestão algorítmica e pela centralização da informação. Em seu livro Tecnopolíticas da Vigilância, os autores mostram como plataformas se tornam “dispositivos sociotécnicos” que moldam comportamentos, preferências e expectativas — ainda que muitas vezes sem que percebamos.

Da mediação à dependência
Plataformas como Google e Amazon não apenas intermediam acessos — elas definem o que é visível, recomendável e, muitas vezes, aceitável.
O resultado é que as relações sociais passam a ser estruturadas por filtros algorítmicos, e a nossa percepção do mundo, moldada por mecanismos invisíveis de ranqueamento, personalização e previsão. Tudo isso, claro, movido por interesses econômicos — mas também por lógicas políticas, ainda pouco transparentes.
Como alerta Evgeny Morozov, em Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política, vivemos um tempo em que problemas sociais complexos têm sido cada vez mais abordados por meio de “soluções técnicas” aparentemente neutras. No entanto, a busca por eficiência, controle e previsão pode obscurecer dimensões éticas, históricas e políticas que não cabem na linguagem dos algoritmos.

E as Big Techs nisso tudo?
Empresas como Amazon, Uber, Google e Meta operam sob essa lógica. Mas é importante perceber que cada uma desenvolve seu próprio modelo de plataforma, com estratégias distintas:
- A Amazon é uma plataforma logística, mas também de dados, publicidade e computação em nuvem. Ela não apenas vende produtos — ela organiza o consumo.
- O Google intermedeia o acesso à informação, mas também constrói mapas do comportamento humano, utilizados para vender publicidade altamente segmentada.
- A Uber propõe-se a ser uma empresa de mobilidade, mas atua como sistema de gerenciamento algorítmico da força de trabalho, reorganizando o que antes era relação de emprego em “conexão” entre usuários.
Em comum, essas plataformas desenvolvem dependências estruturais, tanto de usuários quanto de trabalhadores, pequenos comerciantes e até governos.
Ambivalência, não condenação
É preciso reconhecer que o capitalismo de plataforma não é apenas uma ameaça. Ele também tem promovido inovações valiosas, ampliado o acesso a serviços e gerado novas formas de conexão e expressão.
Contudo, como destacam Gaio e Evangelista, a questão central não está na tecnologia em si, mas no modelo político e econômico que estrutura seu uso. A quem servem os dados? Quem lucra com os comportamentos registrados? Que valores são reforçados ou invisibilizados?
Nesse ponto, a reflexão se desloca da tecnologia para o projeto de sociedade. Morozov chama a atenção para o perigo de aceitar soluções técnicas como se fossem inevitáveis ou naturais. Afinal, nem todo problema social é, de fato, um problema técnico.
E se fosse diferente?
Nos últimos anos, têm surgido alternativas: desde plataformas cooperativas e redes descentralizadas, até propostas de regulação algorítmica, soberania digital e auditoria pública de sistemas automatizados.
Mais do que negar a tecnologia, essas propostas buscam reimaginar seu uso a partir de valores democráticos, solidários e transparentes.
Para isso, como apontam os autores de Tecnopolíticas da Vigilância, é essencial que a sociedade participe ativamente desse debate — antes que as decisões estejam codificadas de forma irreversível.
Conclusão
O capitalismo de plataforma nos obriga a olhar além da técnica, da eficiência e da conveniência. Embora essas características definam grande parte da experiência digital atual, não podemos permitir que elas ocultem as estruturas de poder e os modelos econômicos que sustentam essas plataformas.
Por isso, precisamos adotar uma postura crítica e, ao mesmo tempo, propositiva. Precisamos identificar os riscos — como a concentração de dados, o controle algorítmico e a precarização do trabalho —, mas também enxergar as possibilidades de transformação que surgem nesse mesmo ecossistema.
As plataformas digitais já deixaram de ser simples ferramentas. Hoje, elas configuram o espaço onde vivemos, trabalhamos, consumimos e nos relacionamos. Elas moldam nossas rotinas, organizam nosso acesso à informação e influenciam as formas de convivência social. Ou seja, nós não apenas usamos essas tecnologias — nós habitamos essas infraestruturas.
Justamente por isso, temos a responsabilidade de intervir. Podemos reformar essas plataformas, redesenhar seus modelos de funcionamento e reconstruí-las com base em valores coletivos. Quando colocamos a tecnologia sob escrutínio democrático, ampliamos nossas chances de transformá-la em um bem comum.
Em vez de aceitar passivamente o rumo que essas estruturas tomaram, precisamos agir: regular, propor, imaginar e construir alternativas que coloquem a justiça social, a equidade e a transparência no centro da vida digital.
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André Sampaio é historiador, educador e especialista em tecnologias aplicadas à educação. Com mais de 15 anos de atuação no setor, uniu sua experiência em sala de aula à inovação pedagógica, atuando como professor, autor de materiais didáticos e especialista pedagógico em edtechs.
Formado em História pela UFF e mestre em Educação pela PUC-Rio, com foco em tecnologias educacionais, é também colaborador do Betaverso — espaço onde escreve sobre os impactos da tecnologia na educação, cultura e sociedade. Sua trajetória é movida pelo compromisso com uma educação crítica, acessível e conectada com os desafios do presente.


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